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Desigualdades no trabalho e padrões de linguagem são analisados em estudo sobre audiovisual

Dossiê A Cor do Som ouviu 24 pessoas e reúne relatos de profissionais negros sobre remuneração, reconhecimento e acesso a funções criativas; pesquisa também examina práticas sonoras e linguísticas.
Desigualdades no trabalho e padrões de linguagem são analisados em estudo sobre audiovisual
Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Diferenças de remuneração, dificuldades de reconhecimento e restrições ao acesso de profissionais negros a funções criativas estão entre os relatos reunidos no dossiê A Cor do Som. Elaborado pela Semiótica Antirracista e pelo Estúdio Nina, o estudo analisa manifestações de racismo na indústria do som e no audiovisual brasileiro.

Os pesquisadores ouviram 24 pessoas: 18 profissionais negros das áreas técnica e criativa, quatro acadêmicos e duas personalidades envolvidas no debate racial, cujos nomes não foram divulgados. O levantamento recebeu apoio da empresa Audiolivros e foi lançado no início do Novembro Negro, período dedicado à Consciência Negra.

A pesquisa é qualitativa e apresenta percepções dos entrevistados, sem dados quantitativos. Por isso, os relatos descrevem experiências e interpretações dos participantes, mas não permitem medir a frequência das situações apontadas em todo o setor.

Remuneração e distribuição de funções

Entre as queixas registradas estão o recebimento de salários menores que os de profissionais brancos em funções equivalentes, contratações associadas à aceitação de remunerações mais baixas e dificuldade para cobrar valores compatíveis com a qualificação. Os entrevistados também mencionaram a necessidade de trabalhar mais para demonstrar competência e a falta de reconhecimento por projetos que ajudaram a desenvolver.

Um profissional da área criativa relatou que acumulava atividades como produção de palco, ligações telefônicas, edição e captação. Depois de reivindicar remuneração compatível com o trabalho, disse ter sido demitido por e-mail e substituído por uma influenciadora branca. Outro entrevistado afirmou que, embora fosse responsável pelo desenvolvimento de um projeto, era a pessoa menos ouvida nas decisões.

O dossiê também aborda a concentração de trabalhadores negros em funções técnicas e operacionais. Segundo a avaliação dos pesquisadores, postos ligados à criação, ao pensamento e à tomada de decisões continuam majoritariamente associados a pessoas brancas. Um profissional ouvido afirmou ter trabalhado com som, montagem e assistência de produção antes de questionar por que não poderia exercer a função de produtor.

Som, linguagem e reconhecimento

Na análise da produção sonora, o estudo afirma que prevalece no Brasil um paradigma de origem europeia, colonial e elitista. A busca por retirar dos produtos finais ruídos e interferências associados à rua, à praça e a espaços populares é descrita como uma tentativa de “higienizar” o som.

De acordo com o dossiê, operadores recebem orientações para seguir regras que resultariam em um áudio considerado o mais “higienizado” possível. Os pesquisadores avaliam que esse padrão pode descartar ruídos periféricos e marcas culturais afro-brasileiras. O estudo defende a revisão da ideia de neutralidade técnica nas produções sonoras.

Na linguagem, os autores apontam a prevalência da norma-padrão como fator de hierarquização entre diferentes formas de falar. O dossiê menciona o conceito de “Pretuguês”, associado à intelectual e ativista Lélia Gonzalez, para tratar de marcas fonéticas e sintáticas de línguas africanas presentes em variedades do português que costumam ser consideradas erros ou motivo de deboche.

Enquadramento racial

Outro eixo do levantamento é a forma como profissionais e obras são identificados pela raça. Um dos entrevistados afirmou que ser chamado reiteradamente de “o negro” pode funcionar como uma forma de aprisionamento, inclusive em atividades como jornalismo, escrita e roteiro.

Os pesquisadores também relatam que produções feitas por pessoas negras são frequentemente tratadas como destinadas a um público específico, enquanto obras produzidas por pessoas brancas seriam apresentadas como voltadas ao público geral. Para o estudo, essa distinção reforça a associação do branco à ideia de universalidade e contribui para o enquadramento de obras negras como produtos “de nicho”.

Ao final, a equipe responsável pelo dossiê afirma que o silenciamento é um dos mecanismos recorrentes do racismo e defende que as conclusões sirvam para discutir narrativas, fluxos de trabalho e critérios que orientam a cadeia produtiva do áudio e do audiovisual no país.

Fonte: Agência Brasil Direitos Humanos.

Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil