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Fundação Palmares acompanha escavações do Cemitério dos Africanos em Salvador

17 de junho de 2026
Fundação Palmares acompanha escavações do Cemitério dos Africanos em Salvador
Fundação Palmares acompanha escavações do Cemitério dos Africanos em Salvador
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Sob o solo de uma das áreas mais movimentadas de Salvador (BA), uma parte importante da história do Brasil começa a ser revelada. A confirmação da existência do antigo Cemitério dos Africanos do Campo da Pólvora, localizado onde hoje funciona o Complexo da Pupileira, trouxe à tona memórias que permaneceram soterradas por quase dois séculos e reacendeu o debate sobre preservação, reparação histórica e valorização da ancestralidade africana.

Tópicos da matéria
Uma história que voltou à superfície Escavações confirmaram vestígios humanos Memória, reparação e reconhecimento Atuação da Fundação Cultural Palmares

A descoberta representa um marco para a memória afro-brasileira e para o reconhecimento da contribuição dos povos africanos e da diáspora africana na formação do país. O local recebeu, durante aproximadamente 150 anos, os corpos de milhares de africanos escravizados, seus descendentes, indígenas, pessoas empobrecidas, encarceradas e participantes de importantes movimentos de resistência negra.

A Fundação Cultural Palmares acompanha as discussões sobre a preservação do sítio arqueológico e a continuidade das pesquisas, entendendo que o resgate dessa história está diretamente ligado à sua missão institucional de proteção e valorização do patrimônio cultural afro-brasileiro.

Em entrevista concedida à Fundação Cultural Palmares, a arqueóloga e antropóloga Jeane Dias, responsável pelas escavações que confirmaram a existência do cemitério, explicou que o espaço era administrado pela Santa Casa de Misericórdia da Bahia e funcionou como o primeiro cemitério público da capital baiana.

“O principal grupo sepultado ali era formado por africanos escravizados. Mas também temos registros de indígenas, pessoas pobres, encarceradas e insurgentes. Estamos falando de lideranças da Revolta dos Búzios, de pessoas que morreram em decorrência da Revolta dos Malês e de participantes da Revolução Pernambucana que também foram enterrados naquele espaço”, afirmou.

Segundo a pesquisadora, embora fosse conhecido como cemitério, o local refletia as desigualdades e violências impostas à população negra durante o período escravista.

“Chamamos de cemitério, mas, na verdade, era um depósito de corpos”, destacou.

Uma história que voltou à superfície

A localização do antigo cemitério foi identificada pela arquiteta e urbanista Silvana Olivieri durante sua pesquisa de doutorado na Universidade Federal da Bahia (UFBA).

O interesse pelo tema surgiu após a pesquisadora tomar conhecimento da existência de um cemitério semelhante em Belém (PA). A partir daí, iniciou uma investigação sobre possíveis espaços destinados ao sepultamento de africanos escravizados em Salvador.

“Comecei a pesquisar e encontrei mapas do século XVIII que indicavam a localização do cemitério. Depois, localizei outros documentos, livros e registros que confirmavam onde ele estava e o que havia acontecido com aquele lugar após sua desativação”, explicou.

A pesquisa revelou que o Cemitério dos Africanos do Campo da Pólvora funcionou por cerca de 150 anos, até ser desativado em 1844. Com o passar do tempo, o local desapareceu da paisagem urbana e também da memória coletiva da cidade, tornando-se mais um exemplo do apagamento histórico que marcou a trajetória da população negra brasileira.

Escavações confirmaram vestígios humanos

As escavações arqueológicas realizadas em maio de 2025 confirmaram a existência do sítio. Os primeiros vestígios humanos foram encontrados poucos dias após o início dos trabalhos, incluindo ossos e dentes localizados a aproximadamente três metros de profundidade.

Para os pesquisadores, a profundidade dos achados indica que o local foi progressivamente soterrado ao longo dos anos, contribuindo para o desaparecimento físico e simbólico daquele espaço de memória.

As estimativas apontam que mais de 100 mil pessoas podem ter sido sepultadas no local durante seu período de funcionamento, o que faz do Cemitério dos Africanos um dos maiores acervos de remanescentes humanos de pessoas negras escravizadas das Américas.

O sítio arqueológico já foi homologado e registrado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), reconhecimento que reforça sua relevância histórica e cultural.

Memória, reparação e reconhecimento

Para as pesquisadoras, a descoberta vai além da arqueologia. O trabalho representa uma oportunidade de devolver dignidade e visibilidade a milhares de pessoas que tiveram suas histórias apagadas ao longo do tempo.

“Estamos trazendo esses indivíduos de volta para a escrita da história da cidade e do país. Esse é um debate sobre memória, reparação e dignidade diante de toda a crueldade e desumanização sofridas por essas pessoas”, ressaltou Jeane Dias.

A arqueóloga destaca ainda que compreender a história da escravidão e seus impactos é fundamental para a construção de uma sociedade mais justa e consciente de seu passado.

Atuação da Fundação Cultural Palmares

A Fundação Cultural Palmares foi convidada a integrar as discussões sobre o resgate e a preservação do Cemitério dos Africanos justamente por sua atuação histórica na proteção da memória, da cultura e do patrimônio afro-brasileiro.

De acordo com a diretora do Departamento de Proteção ao Patrimônio Afro-Brasileiro (DPA), Cida Santos, a descoberta dialoga diretamente com a missão institucional da Fundação.

“A Fundação Cultural Palmares participa desse movimento porque tem como compromisso a proteção e o resgate da história da nossa ancestralidade. Essas lideranças e essas pessoas fazem parte da trajetória do povo negro brasileiro e da construção do país. Preservar essa memória é garantir que ela não seja novamente apagada”, afirmou.

Segundo a diretora, a continuidade das pesquisas arqueológicas é fundamental para ampliar o conhecimento sobre o local e assegurar que esse patrimônio histórico receba o reconhecimento e a proteção necessários.

“A Fundação Cultural Palmares, juntamente com outras instituições parceiras, busca dar visibilidade nacional a essa pauta para que as pesquisas avancem e para que possamos preservar a memória histórica do nosso povo. Estamos falando de um espaço que guarda parte importante da história da população negra brasileira”, completou.

Ao emergir do silêncio imposto por décadas de invisibilização, o Cemitério dos Africanos do Campo da Pólvora transforma-se em um símbolo de memória, ancestralidade e resistência. Mais do que revelar vestígios do passado, a descoberta reafirma a importância de reconhecer, preservar e valorizar a história dos povos africanos, afro-brasileiros e da diáspora africana que ajudaram a construir o Brasil.

Henrique Bertoldo, da FP

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