Presidente destacou, durante Conferência da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, a saída do país do Mapa da Fome.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva participou, nesta quarta-feira, 4 de março, da cerimônia de abertura da 39ª Conferência Regional da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) para a América Latina e o Caribe (LARC39), realizada em Brasília (DF). O encontro é o principal fórum regional da organização para definição de prioridades e alinhamento estratégico das ações da organização no biênio 2026-2027.
O Brasil deu exemplo duas vezes, é possível acabar com a fome. É possível garantir que todo mundo tenha direito a tomar café, almoçar e jantar todo dia. É plenamente possível”
Luiz Inácio Lula da Silva, presidente da República
Durante discurso, o presidente destacou que o Brasil demonstrou ser possível reduzir a fome por meio de políticas públicas voltadas à produção de alimentos, ao fortalecimento da agricultura e à ampliação da renda da população, citando a saída do Brasil do Mapa da Fome. “O Brasil deu exemplo duas vezes, é possível acabar com a fome. É possível garantir que todo mundo tenha direito a tomar café, almoçar e jantar todo dia. É plenamente possível”, afirmou.
PRIORIDADES DE TRABALHO — A Conferência Regional da FAO para a América Latina e o Caribe ocorre a cada dois anos como espaço de diálogo técnico e político sobre os avanços e desafios da região nas áreas de agricultura, desenvolvimento rural e segurança alimentar e nutricional. O encontro contribui para a definição das prioridades de trabalho da Organização para os anos seguintes.
“É isso que tem que sair de mensagem, de uma conferência que envolve a América Latina, que é uma parte do mundo rica, que tem praticamente tudo aquilo que a natureza ofereceu a todos os seres humanos e que muitas vezes são explorados pelas pessoas que não são daqui para produzir parte das armas que destroem aquilo que já foi construído”, declarou o presidente.
Lula também afirmou que os recursos globais poderiam ser direcionados de forma mais efetiva para o combate à pobreza e à insegurança alimentar. “É por excesso de irresponsabilidade, é por excesso de falta de compromisso que a gente não consegue exterminar a fome do planeta Terra, que já tem conhecimento genético, já tem conhecimento tecnológico, já produz mais alimento do que nós deveríamos consumir e esse alimento não chega à casa das pessoas. Enquanto isso, as pessoas importantes do planeta que deveriam estar preocupadas com a fome estão preocupadas com a guerra”, afirmou Lula durante seu discurso.
80 ANOS DA FAO — A realização da Conferência ocorre junto às celebrações dos 80 anos da FAO. Durante o evento, o Palácio Itamaraty recebe estandes do governo brasileiro e uma exposição comemorativa do aniversário da FAO e da cooperação Sul-Sul brasileira, com destaque para as principais iniciativas e programas desenvolvidos na América Latina e no Caribe. Além das autoridades estrangeiras, participam representantes de organismos internacionais, setor acadêmico, sociedade civil e setor privado.
“A gente não pode tratar a questão da fome como se fosse uma questão de ONGs, como se fosse assim: ‘se sobrar, tem. Se não sobrar, não tem’. Tem que ser tratado como uma questão de prioridade, prioridade zero. É um direito sagrado, todo mundo tem que tomar café, almoçar e jantar todo dia”, completou o presidente Lula.
Como país anfitrião, o Governo do Brasil participa das discussões e das atividades paralelas da conferência, incluindo debates sobre cooperação Sul-Sul trilateral desenvolvida pelo Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS), em parceria com a Agência Brasileira de Cooperação (ABC) e a FAO.
SEGURANÇA ALIMENTAR — Mauro Vieira, ministro das Relações Exteriores (MRE), destacou que o Brasil colocou o combate à fome de volta ao centro das políticas públicas. Além disso, ressaltou o papel da América Latina e Caribe como estratégicos para a segurança alimentar. “Somos grandes produtores de alimentos e uma potência agroalimentar inovadora, profundamente conectada à terra, às águas e às florestas. Somos a primeira região a assumir o compromisso coletivo de erradicar a fome”, disse Vieira.
“Ao sediar esta Conferência, o Brasil reafirma sua convicção de que o multilateralismo deve produzir benefícios concretos para as nossas populações. Poucos objetivos são tão urgentes quanto assegurar que ninguém mais passe fome. Espero que esta reunião produza orientações claras e compromissos robustos à altura das expectativas dos nossos povos”, completou Mauro Vieira.
AGRICULTURA FAMILIAR — Paulo Teixeira, ministro do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA), copresidente da Conferência latino-americana da FAO, destacou que a Conferência ocorre após um período de presidências do Brasil em fóruns internacionais, como o G20, o BRICS e a Convenção do Clima da ONU, nos quais a agricultura e os sistemas alimentares tiveram papel central.
“Hoje, sabemos, com base em dados da própria FAO, que a agricultura familiar é parte essencial da solução para as grandes crises do nosso tempo, da fome, da pobreza e do meio ambiente. Por isso, é fundamental apoiar a agricultura familiar com políticas de acesso à terra, crédito, assistência técnica e extensão rural, compras públicas, de incentivo ao cooperativismo e do fortalecimento da autonomia econômica das mulheres, dos jovens, dos povos e comunidades tradicionais”, declarou Teixeira.
O ministro também defendeu o fortalecimento da cooperação internacional e de sistemas produtivos mais sustentáveis como caminhos para garantir a segurança alimentar. “Para acelerar a transição ecológica e agroflorestal, é preciso investir nos sistemas produtivos dos agricultores e agricultoras familiares, camponeses, inclusive jovens, povos indígenas, comunidades rurais afrodescendentes, povos de comunidades tradicionais, pequenos pescadores e criadores de animais assentados da reforma agrária e trabalhadores rurais”, afirmou.
DIÁLOGO E COMPROMISSO — O ministro Carlos Fávaro, da Agricultura e Pecuária, ressaltou que o enfrentamento de desafios como a inflação de alimentos, a fome e os impactos das mudanças climáticas exige cooperação internacional e investimento em ciência e inovação. “Em um cenário de desafios crescentes, fortalecer a resistência dos sistemas alimentares é uma tarefa que exige cooperação, diálogo e compromisso com a ciência. Cada país aqui presente traz experiências valiosas e temos o dever de compartilhá-las”, destacou.
Fávaro também mencionou as ações brasileiras no combate à fome. ”É uma honra compartilhar os avanços no Brasil na agenda dos bioinsumos, ciência e inovação. Só em 2025 conseguimos registrar 139 novos insumos biológicos no Ministério da Agricultura, um recorde que demonstra o dinamismo desse setor. Hoje, no Brasil, mais de 80% dos nossos produtores de soja utilizam a fixação biológica de nitrogênio, reduzindo o custo, diminuindo a dependência de fertilizantes nitrogenados e contribuindo para a mitigação das emissões de carbono”, disse.
COOPERAÇÃO — Para o diretor-geral da FAO, Qu Dongyu, a América Latina e o Caribe vêm avançando no combate à fome, com redução consistente nos últimos anos graças a políticas públicas eficazes e à cooperação entre os países. “Os sistemas agroalimentares fornecem subsistência para mais de 100 milhões de pessoas nessa região. Mulheres em áreas rurais, jovens, povos indígenas e agricultores de pequena escala são importantíssimos para as economias locais, como também a cadeia de abastecimento alimentar. A FAO tem apoiado os países para melhorarem a sua especialidade com relação à gestão do solo, à expansão da agricultura digital, fortalecendo também a saúde animal e das culturas”, disse.
FOME ZERO — O diretor afirmou que alguns países da região já apresentam baixos índices de subnutrição e outros seguem no caminho para alcançar o objetivo de Fome Zero até 2030. “Estamos aqui para alavancar a transformação dos nossos sistemas agroalimentares para que sejam mais eficientes, mais inclusivos e mais sustentáveis, para que a gente possa realmente atingir uma melhor produção, uma melhor nutrição, um melhor ambiente e melhor vida para todos. Essa região é líder em inovação e agricultura de precisão”, destacou.
EMBAIXADORA — Durante a cerimônia, a primeira-dama do Brasil, Janja Lula da Silva, recebeu o título de Embaixadora da Boa-Vontade Contra a Fome da FAO. “Não importa se você é uma pessoa refugiada, migrante ou que vive em um país de conflito, a fome jamais deveria ser usada como arma de guerra. O direito à alimentação é universal e nós, como humanidade, devemos trabalhar para garanti-lo”, disse a primeira-dama.
MAPA DA FOME — O Brasil voltou a sair do Mapa da Fome após registrar queda histórica da insegurança alimentar grave e o menor nível de extrema pobreza em três décadas. Os resultados foram atribuídos à ampliação de políticas públicas que integram proteção social e incentivo à produção de alimentos, com programas de transferência de renda, acesso ao crédito rural e fortalecimento da agricultura familiar.
Na Conferência, o Governo do Brasil também destacou ações voltadas à produção sustentável, à recuperação de áreas degradadas e à ampliação da assistência social, além do reconhecimento internacional por iniciativas na área sanitária pela FAO, reforçando o compromisso do país com a segurança alimentar, a redução das desigualdades e o desenvolvimento sustentável. Entre as iniciativas estão o Bolsa Família, o Plano Safra, o Pronaf, o Programa Cisternas e o Acredita no Primeiro Passo, que integram a estratégia para reduzir a pobreza, ampliar a renda e fortalecer a produção de alimentos
MULHER AGRICULTORA — Durante a LARC39 também ocorrerá o lançamento regional do Ano Internacional da Mulher Agricultora, iniciativa aprovada pela Assembleia Geral das Nações Unidas com o objetivo de destacar a contribuição das mulheres para os sistemas agroalimentares.
Na América Latina e no Caribe, as mulheres desempenham papel central nos sistemas agroalimentares, atuando na produção, transformação, distribuição e comercialização de alimentos. Elas representam 36% da força de trabalho nesses sistemas, com participação especialmente relevante nas atividades não agrícolas, como processamento, comercialização e vendas.
Apesar dessa contribuição, as mulheres rurais ainda enfrentam desigualdades estruturais, como acesso limitado à terra, a crédito, a tecnologias e a mercados, além da sobrecarga de trabalho doméstico e de cuidados não remunerados. Nesse contexto, a designação de 2026 como Ano Internacional da Agricultora busca dar visibilidade à contribuição dessas mulheres e promover ações e políticas voltadas ao seu empoderamento e à redução das desigualdades nos sistemas agroalimentares da região.
QUATRO PRIORIDADES — A Conferência Regional sintetizará as linhas de trabalho da FAO sob quatro Prioridades Regionais, refletindo os “Quatro Melhores” do Marco Estratégico da Organização — quatro dimensões interconectadas que contribuem para a transformação dos sistemas agroalimentares:
• Prioridade Regional 1: produção eficiente, inclusiva e sustentável. (Melhor Produção)
• Prioridade Regional 2: acabar com a fome e alcançar a segurança alimentar e a nutrição. (Melhor Nutrição)
• Prioridade Regional 3: gestão sustentável dos recursos naturais e adaptação à mudança climática. (Melhor Ambiente)
• Prioridade Regional 4: redução das desigualdades e da pobreza e promoção da resiliência. (Uma Vida Melhor)
O segmento ministerial ocorre entre os dias 4 e 6 de março após a reunião de altos funcionários nos dois dias anteriores. Ao sediar a LARC39, o Brasil reafirma o compromisso com a segurança alimentar e nutricional e com o fortalecimento do multilateralismo e da integração regional.
