O presidente Luiz Inácio Lula da Silva concedeu, nesta sexta-feira, 20 de fevereiro, uma entrevista exclusiva à India Today TV, parte da India Today Group. Durante quase uma hora, ele apresentou a posição do Governo do Brasil sobre diversos temas e exaltou os avanços obtidos pelo país nos últimos três anos em pontos como o combate à fome e a redução do desmatamento na Amazônia.
Lula também defendeu a importância do multilateralismo e de uma reforma no Sistema das Nações Unidas como formas eficazes de evitar conflitos e discutir as questões globais em um cenário de maior estabilidade política internacional. Lula desembarcou em Nova Délhi na última quarta-feira para participar da Cúpula sobre o Impacto da Inteligência Artificial e cumprir uma série de outras agendas no país.
Abaixo, os principais pontos da entrevista:
CÚPULA SOBRE O IMPACTO DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL – “Na política, se você não faz os debates, se você não faz os encontros, se você não mistura as pessoas, você não consegue construir uma política consensual para atender a maioria das pessoas. É importante levar em conta que a inteligência artificial é uma coisa extremamente importante para a humanidade, mas é preciso que ela esteja a serviço da sociedade e que ela possa fazer com que o povo possa melhorar de vida. Acho que, na área da saúde, a inteligência artificial vai cumprir um papel muito importante, na área da educação pode cumprir um papel importante, mas nós precisamos tomar muito cuidado para que a inteligência artificial não substitua o trabalho do ser humano. O primeiro-ministro Modi (Narendra Modi, primeiro-ministro da Índia) governa um país de um bilhão e 400 milhões de habitantes que precisa gerar empregos, que precisa gerar renda e precisa gerar qualidade de vida para as pessoas. A inteligência artificial tem que estar a serviço disso, a serviço do crescimento do país, da melhoria da qualidade dos serviços privados e públicos e, sobretudo, na perspectiva de melhorar as condições de trabalho de toda a humanidade. Nós não podemos permitir que a inteligência artificial possua um dono ou dois donos. Quem tem que assumir a inteligência artificial é a sociedade. E é por isso que este debate, aqui na Índia, foi extremamente importante.”
A inteligência artificial tem que estar a serviço disso, a serviço do crescimento do país, da melhoria da qualidade dos serviços privados e públicos e, sobretudo, na perspectiva de melhorar as condições de trabalho de toda a humanidade. Nós não podemos permitir que a inteligência artificial possua um dono ou dois donos. Quem tem que assumir a inteligência artificial é a sociedade. E é por isso que este debate, aqui na Índia, foi extremamente importante”.
REGULAÇÃO DA IA – “Tem que ter uma regulamentação rígida. É por isso que nós achamos que essa regulação tem que ser feita numa instituição multilateral que tenha o tamanho das Nações Unidas. E ela tem que ser regulada para proteger, sobretudo, crianças, adolescentes e mulheres, porque nós não podemos permitir que a inteligência artificial seja utilizada para promiscuidade, para causar danos à intimidade das pessoas, à vida das pessoas, para provocar violência contra qualquer pessoa. Obviamente que você tem dois ou três donos de plataforma que não querem que haja nenhuma regulação. Mas se a gente não fizer uma regulação e a gente perder o controle, o que eu acho que não será bom para a humanidade. Poderá ser lucrativa para uma ou para outra pessoa, mas para a humanidade não será boa. Por isso que nós, governantes, temos que ter noção de proteção da sociedade contra essa coisa extraordinária que é a inteligência artificial.”
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A IMPORTÂNCIA DO BRICS – “O Brics foi uma das coisas mais importantes que foram criadas nas últimas três décadas. Ou seja, é importante você lembrar, nós temos o G7 que funciona em defesa da determinação política dos países mais ricos, você tem o G20 que foi criado por ocasião da crise econômica de 2008, uma crise criada no coração dos Estados Unidos, e depois você tem o Brics, que é uma representação do Sul Global. É uma coisa nova porque representa o Sul Global e participando países como a China e como a Índia, você tem só nesses dois países quase três bilhões de seres humanos. Se você imaginar a Indonésia, o Brasil, você vai ter metade da humanidade participando dos Brics, você vai ter um bom percentual do PIB participando dos Brics e você então pode estabelecer uma nova dinâmica na política comercial, na política cultural e na relação entre os Estados. É por isso que eu sou defensor do multilateralismo, porque depois da Segunda Guerra Mundial, o multilateralismo permitiu que houvesse a busca de uma harmonia entre as nações para que a gente pudesse evitar conflitos, porque toda guerra começa com uma guerra comercial.
Nós não precisamos de guerra comercial. O Brasil não quer uma segunda Guerra Fria. O Brasil quer comercializar com os Estados Unidos, quer fazer comércio com a China, com a Índia, com a Rússia, com a Bolívia, com todos os países do mundo. Eu sou defensor do livre comércio, do multilateralismo e da harmonia entre as nações.
É preciso que se aprenda a respeitar a soberania territorial, a soberania cultural das pessoas e dos países. Por isso é que eu sou um defensor muito grande dos BRICS.”
RELAÇÃO BRASIL-ÍNDIA – A relação Brasil-Índia tem que ser muito forte. Fui eu quem fiz o primeiro acordo estratégico entre Brasil e Índia, no meu primeiro mandato, e eu quero agora, nessa viagem minha agora, reforçar a relação com a Índia. Nós estamos trazendo por volta de 300 empresários do Brasil, tem mais de 300 empresários da Índia inscritos no debate que vai ser feito amanhã, e nós queremos que a nossa relação política, cultural, comercial seja muito forte. Nós queremos aprender com a Índia e queremos ensinar aquilo que a gente pode ensinar à Índia. Nós queremos vender e queremos comprar.
Nós queremos trocar experiências entre as nossas empresas, construir parcerias entre as nossas empresas, porque Brasil e Índia não podem ter apenas 15 bilhões de dólares de fluxo de comércio exterior, nós precisamos ter 30, 40 bilhões, pelo tamanho dos países e pela economia dos nossos países.
Nós queremos que a Índia conheça esse nosso potencial, para que os empresários da Índia sintam-se à vontade para fazer investimentos no Brasil ou para construir parcerias. A nossa empresa de aviação, a Embraer, vai montar uma fábrica aqui na Índia, é isso que precisa acontecer entre Brasil e Índia. A gente não pode ficar dependendo dos Estados Unidos ou dependendo da China, nós queremos que a nossa economia cresça, porque, se ela crescer, o fluxo comercial cresce e vai ser bom para a Índia e vai ser bom para o Brasil. Nós somos as duas maiores democracias do Sul Global, portanto nós temos que dar bons exemplos.”
A QUESTÃO DA VENEZUELA – “A posição do Brasil é muito clara. Foi clara na invasão da Rússia à Ucrânia, como foi em Gaza e como é agora na Venezuela. É inadmissível que um chefe de Estado de um país possa invadir o outro país e sequestrar o presidente. Isso não tem explicação e não é aceitável. Agora, o Maduro está preso. O que mais interessa nesse instante é restabelecer a democracia na Venezuela. E acho que se o Maduro tiver que ser julgado, que seja julgado dentro do seu país e não julgado no exterior. Não é admissível, não é aceitável a ingerência de uma nação em outra nação.”
ENCONTRO COM PRESIDENTE TRUMP – “O Brasil não quer enfrentamento nem com os Estados Unidos. Estou marcando uma conversa com o presidente Trump para que a gente coloque, olhando um no olho do outro, as questões entre o Brasil e os Estados Unidos. Eu quero negociar os interesses do meu Estado, respeitando os interesses do outro Estado.
Então, na minha conversa com Trump, eu quero negociar, por exemplo, a questão do combate ao narcotráfico e ao crime organizado. Vou levar uma proposta para ele. Eu quero negociar essa coisa dos minerais críticos e das terras raras. O Brasil tem muitos minerais críticos e tem muitas terras raras. Dois chefes de Estado têm que se sentar, olhar um no olho do outro e dizer o que pensam.
É isso que vai acontecer entre mim e o Trump. Eu respeito todo mundo e gosto muito de ser respeitado. A relação entre Brasil e Estados Unidos tem 201 anos e eu quero que continue uma relação forte, com a liberdade que os Estados Unidos querem para ele e com a liberdade que eu quero para o meu país.”
FORTALECIMENTO DA ONU – “O mundo anda muito nervoso e há uma ausência de muitas lideranças de muitas partes do mundo. Ou seja, as instituições que garantem o processo democrático estão ficando desacreditadas. A ONU está desacreditada. Há mais de 20 anos que o Brasil criou o G4. Nós defendíamos que o Brasil, a Índia, a Alemanha e o Japão deveriam fazer parte do Conselho de Segurança da ONU. A ONU está muito enfraquecida e mesmo os membros do Conselho de Segurança, Trump, Xi Jinping, Putin, Macron e o Reino Unido não conversam entre si. Você fica discutindo em nível de embaixadores. Era preciso que a ONU voltasse a ser fortalecida para que ela pudesse coordenar todo e qualquer conflito existente em qualquer lugar do mundo. Eu quero provar que não é normal o mundo gastar 2 trilhões e 400 bilhões de dólares em armas e não gastar 10% disso para acabar com a fome no mundo. Eu quero provar que não é normal o aumento da violência contra a mulher e contra a criança.
O mundo precisa de paz, de tranquilidade. Nós temos milhões e milhões de seres humanos que ainda não têm energia elétrica. E nós ficamos falando de guerra? Não, eu quero paz. Nós queremos mudar a ONU. Não adianta criticar a ONU. Como é que a gente resolve isso? Mudando o funcionamento da ONU.
Quem é que faz guerra? São os países que fazem parte do Conselho de Segurança da ONU. Se o chefe da família não respeita a família que criaram, quem vai respeitar? Nós temos que fazer muita força, o primeiro-ministro Modi, eu e todos os outros que querem mudança na ONU, para que a ONU seja reformulada e tenha representatividade.”
O EXEMPLO DE GHANDI – “Minha teoria é a teoria do Mahatma Gandhi, que conquistou a independência desse gigante chamado Índia só com o exemplo. Só motivando o povo e mostrando que a Índia teria que ser livre. É o exemplo da minha vida. É o exemplo das coisas como eu acho que têm que acontecer.”
PROTEÇÃO DA AMAZÔNIA – “Quando eu fiz a COP na Amazônia, é porque eu queria que o mundo conhecesse a Amazônia. Porque tem muita gente que fala da Amazônia, mas não conhece a Amazônia. É importante saber que na Amazônia moram 30 milhões de pessoas que querem viver, que querem trabalhar, que querem ter acesso aos bens materiais que as pessoas das cidades querem.
A outra coisa é que nós, em apenas três anos, diminuímos em mais de 50% o desmatamento na Amazônia. Nós estamos provando que uma árvore em pé vale mais do que uma árvore derrubada. Por isso é que nós criamos o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF), que é um jeito novo de financiar a questão da preservação da Amazônia. Não é doação de dinheiro, é investimento. Acho que vai dar conta nos próximos anos, para que a gente possa resolver o nosso problema do desmatamento.
Nós temos seis biomas no Brasil e nós queremos preservar todos eles. E é uma luta titânica, porque são as pessoas que querem preservar e as pessoas que não querem preservar. São as pessoas que têm consciência, cientistas e estudam o assunto e provam que está havendo uma mudança climática forte, e outros que não querem acreditar. Alguns que não cumpriram o Protocolo de Kyoto, alguns que não querem cumprir o Acordo de Paris. Ao invés de ficar brigando com os outros, eu vou cumprir a minha parte. Eu me comprometi a desmatamento zero na Amazônia até 2030.”
