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Governo

Ministra da Igualdade racial escreve sobre maternidade negra e democracia

10 de maio de 2026
Ministra da Igualdade racial escreve sobre maternidade negra e democracia
Ministra da Igualdade racial escreve sobre maternidade negra e democracia
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O Dia das Mães é tomado por múltiplos afetos, mas também nos mobiliza a aprofundar as reflexões sobre a maternidade, especialmente das mulheres negras, e seus cruzamentos com a realidade atual do Brasil. É excessivamente pesado o cotidiano de quem assume a maternidade – função que a sociedade muitas vezes impõe como destino, naturalizando as duplas ou triplas jornadas. O que o Brasil de hoje nos apresenta, contudo, a partir dos acúmulos das lutas que nos antecederam, são condições reais de impor mudanças bastante significativas nesta realidade.

Carolina Maria de Jesus, mãe solteira, negra, conta em seus escritos da década de 1960 sobre a criação dos três filhos catando papel, sem qualquer suporte familiar, emocional ou financeiro, seja de um companheiro, do pai das crianças ou das estruturas públicas. Uma condição social e cultural ainda muito conhecida das nossas mulheres, especialmente das trabalhadoras domésticas, que representam 5,1 milhões de mulheres, 62% delas negras.

A responsabilidade de criar bem os filhos norteia as ações de Carolina e dá contorno à sua busca por dignidade, respeito e à aspiração por uma vida com beleza e poesia. Uma agenda contra a carga desproporcional nos ombros femininos, condição que pode ser equilibrada e ressignificada com políticas públicas, educação e compartilhamento de responsabilidades. Esse deve ser o horizonte dos nossos avanços, pois uma sociedade que cuida de suas mulheres e mães é mais saudável, longeva e próspera. Mais feliz.

Há muitas frentes nesta luta. A necessária e corajosa agenda do Governo do Brasil pelo fim da escala 6 x 1 sem redução salarial é uma delas e dialoga diretamente com a qualidade da atenção e do cuidado com os filhos e com a possibilidade de as mães brasileiras manejarem com prazer e sabedoria o caro e raro ativo do tempo pessoal e familiar.

Como pauta do nosso governo, também estamos construindo e inaugurando mais salas de amamentação nos espaços de trabalho (mesmo sabendo que ainda são insuficientes), colocamos em prática a primeira política do cuidado da história do Brasil, que modifica a legislação para reconhecer o cuidado como fundamental para a economia e o desenvolvimento do país, sendo também, responsabilidade do estado.

Números do IBGE (2023) mostram que entre jovens que não conseguem trabalhar ou estudar, 64% são mulheres ocupadas exclusivamente com tarefas domésticas e cuidados familiares, situação que atinge extremos 80% entre mães de crianças de zero a três anos, que não conseguem sequer buscar um emprego.

A maternidade deve ser compreendida de forma mais abrangente, como uma responsabilização coletiva, relacionada a criar vidas, sujeitos sociais e isso só será possível com políticas públicas consistentes, como a histórica reivindicação por creches, por educação de qualidade, rede de assistência à saúde a redução das jornadas formais de trabalho.

Considero fundamental valorizar e festejar a maternidade, o grandioso processo físico, emocional e social de tornar-se mãe. Falo a partir da minha experiência desafiadora de ser mulher negra, ministra da Igualdade Racial e mãe no espaço público. Por isso sei que é parte do avanço inserir na linguagem e nas práticas s o ciopolíticas o conceito de maternagem, tão central nas favelas e periferias, que não se baseia na condição biológica ou de gênero, mas progride para o campo da responsabilidade, do afeto, do dever. A maternagem pode ser exercida pelas avós, vizinhas e vizinhos, no trabalho e por qualquer pessoa com a responsabilidade de cuidar, ladeada aos indispensáveis serviços oferecidos pelo poder público.

Me inspiro olhando para os lados e para trás, quando vejo mulheres ultrapassando as barreiras que historicamente repartiram a maternidade, o estudo, o trabalho e o lazer como campos segregados e incomunicáveis. A divisão justa do trabalho e as políticas em desenvolvimento precisam reverter esse violento fracionamento , além de assegurar que as mães possam transitar e acessar o mercado de trabalho em postos de liderança, a formação e o lazer, ao mesmo tempo ou na medida do seu desejo.

Nossa missão é, então, coletivizar e politizar cada vez mais esse debate, pois a criação de crianças não pode ser responsabilidade de uma pessoa – a mulher – mas de um coletivo, da sociedade e do estado brasileiro. A maternidade e a maternagem não são assunto s femininos, ou somente de mães, mas tema do Brasil, desse Brasil que estamos construindo juntas.

Viva as mães brasileiras, conduzindo na barriga e nos ombros as alegrias e as adversidades da jornada materna, que há de ser cada vez mais democrática, justa e equilibrada. Com mesa farta, filhos na creche e um grande futuro pela frente.

*Rachel Barros é mãe, ministra da Igualdade Racial e doutora em Sociologia pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ).

Assuntos Governo
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