Ao usar este site, você concorda com a Política de Privacidade e os Termos de Uso.
Accept
O Governador
Facebook Like
Twitter Follow
Instagram Follow
O GovernadorO Governador
Pesquisar
  • Principal
Follow US
© Foxiz News Network. Ruby Design Company. All Rights Reserved.
Governo

Expedição une ciência e saberes tradicionais indígenas para resgatar alimentos

13 de agosto de 2025
Expedição une ciência e saberes tradicionais indígenas para resgatar alimentos
Compartilhar

Entre 7 e 9 de agosto, pesquisadores da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Universidade Federal de Goiás (UFG) e Embrapa Alimentos e Territórios estiveram no noroeste de Mato Grosso para dialogar com representantes dos povos Terena, Paresí e Nambikwara e mapear frutos e tubérculos que podem voltar a compor a dieta tradicional das aldeias.

O som vibrante da arara-canindé cortava o ar enquanto o rio Buritis corria, constante, atrás da pequena cozinha com telhado de palha de babaçu. Ali, na aldeia Serra Azul, a professora Cleide Terena lembrava de um tempo em que o prato mais esperado da infância era um mingau feito de um milho vermelho, hoje desaparecido da região. “Meu avô tecia redes de algodão. A gente vivia de outra forma. Hoje, muitos dos nossos alimentos se perderam”, contou, com o olhar dividido entre a memória e o futuro.

A cena fez parte da primeira expedição do projeto “Aproveitamento integral de frutos e tubérculos da Amazônia Legal”, iniciativa da UFMT, UFG e Embrapa Alimentos e Territórios. Financiado pela Iniciativa Amazônia+10, o projeto busca resgatar espécies nativas e cultivadas, valorizar saberes tradicionais e estimular a bioeconomia indígena como estratégia para reduzir a insegurança alimentar nas aldeias.
Com duração prevista de 36 meses, a pesquisa conta com o apoio do CNPq e das Fundações de Amparo à Pesquisa de Mato Grosso (FAPEMAT), Alagoas (FAPEAL) e Goiás (FAPEG).

Mulheres em rede – Cleide é líder da Associação Thuthalinansu, criada em 2018 para fortalecer a atuação das mulheres indígenas e suas atividades produtivas. “Os homens pegavam o carro e o dinheiro para ir à cidade e nós ficávamos com as crianças passando fome. A evasão escolar aumentava. Criamos a associação para mudar isso”, explica. Desde então, as associadas já participaram de edital da marca francesa L’Oréal, cursos de corte e costura, desenho de moda e ações ligadas à agricultura familiar e à ancestralidade. Mas os desafios permanecem — e agora também vêm do clima. “As mudanças climáticas já chegaram aqui. A colheita não tem mais o mesmo tempo certo”, afirma.

Na aldeia Cabeceira do Jabuti, as irmãs Vanessa, Vânia, Elisabete e a matriarca Lourdes, do povo Nambikwara, receberam a equipe mostrando, com orgulho, o artesanato colorido que produzem. Entre lembranças e histórias, listaram os alimentos que despareceram: milho-pipoca, feijão-fava, amendoim, cará-roxo. Vanessa compartilhou o mito do Menino que virou roça e ressaltou que, em quase todos os rituais, é costume oferecer comida aos parentes indígenas como forma de agradecimento e conexão. Hoje, porém, a dieta na aldeia é restrita: arroz, mandioca, feijão, macarrão, temperos industrializados, café, leite, mingau de fubá, frango e peixe. Hortaliças não aparecem no prato.

No último dia de expedição, 14 indígenas das aldeias Anchieta, Arara Azul, Guarantã, Kaititu, Novo Horizonte e Paraíso se reuniram na aldeia Serra Azul. Levaram açafrão, farinha de mandioca, massa para beijú, limão-galego, banana, tempero caseiro, mini abóboras, araruta, um peixe inteiro e peças de artesanato, mostrando o que ainda produzem e consomem. “Percebemos que há um mesmo comportamento alimentar nas aldeias, mas falta diversidade”, observou a coordenadora do projeto, Maressa Morzelle (UFMT). Para o pesquisador Moacir Haverroth (Embrapa), os fatores geográficos também pesam: “A TI é cercada por grandes fazendas, com as melhores terras. Aqui, o solo é pobre, típico do Cerrado, com relevo para mais acidentado e as queimadas são comuns”.

O que ficou e o que se perdeu

Ainda resistem na TI Tirecatinga alimentos como mandioca, batata, araruta, jatobá, cará, mangaba, cajuzinho-do-cerrado, abacaxi-do-cerrado, bacaba e birici. Entre os pratos típicos, destacam-se o beijú de mandioca com peixe cozido,  o bolo de beijú com peixe e feijão-fava. O mais citado, porém, foi a chicha — bebida fermentada tradicionalmente produzida por povos indígenas da América Latina, especialmente nos Andes e na Amazônia. Pode ser feita com grãos, como o milho (especialmente o milho jora), ou raízes, como a mandioca. Mais do que uma bebida, é um elemento cultural de forte significado ritual e social.

Já na lista dos alimentos perdidos estão, além do milho vermelho lembrado por Cleide, o milho-pipoca, feijão-fava, amendoim e cará-roxo — espécies que o projeto pretende coletar, analisar, multiplicar e retonar as sementes para as aldeias.

As próximas etapas do projeto incluem oficinas sobre multiplicação de sementes, alimentação saudável nas escolas da TI e uso da biodiversidade como ferramenta para Segurança Alimentar e Nutricional (SAN). Ao final, uma oficina gastronômica reunirá pratos tradicionais e apresentações culturais.

Mais do que resgatar sabores, a Iniciativa Amazônia+10 é uma aposta na autonomia alimentar e no protagonismo indígena. Um caminho para que as histórias, rituais e memórias afetivas ligadas à comida sigam vivas — e para que as crianças das futuras gerações possam provar, de novo, o mingau de milho vermelho.

📌 Terra Indígena Tirecatinga

📍 Localização: Município de Sapezal, noroeste de Mato Grosso, no bioma Cerrado.
📏 Área: 131 mil hectares.
📜 História: Declarada terra indígena em 1983 e homologada em 1991.
👥 Povos indígenas: Terena, Paresí, Nambikwara, além de presença Manoki e Rikbaktsa.
🏠 Aldeias: 16 aldeias; o projeto atua diretamente em 8 delas.
👤 População: Aproximadamente 244 pessoas (dados 2022 – ISA).
🌱 Projeto: “Aproveitamento integral de frutos e tubérculos da Amazônia Legal”, coordenado pela UFMT, UFG e Embrapa Alimentos e Territórios, financiado pela Iniciativa Amazônia+10.
🎯 Objetivos: Resgatar e multiplicar espécies alimentares tradicionais, fomentar bioeconomia indígena, promover segurança alimentar e reduzir doenças associadas à má alimentação.
⏳ Duração: 3 anos (2025-2028).

📌 Mito Nambikwara – O menino que virou roça

Entre os Nambikwara, povo indígena do noroeste de Mato Grosso, há uma antiga narrativa sobre um menino atraído pelo som sagrado das flautas. Conta-se que ele desapareceu e, no local onde esteve, seu corpo começou a se transformar em alimentos.
De cada parte, nasceram plantas cultivadas:
Sangue – urucum
Pupila – feijão-fava
Fígado – taioba
Testículo – cará
Perna – araruta
Espinha – rama de mandioca
Músculos – raiz da mandioca
Mãos – folhas da mandioca
Costelas – feijão-preto
Cabeça – cabaça
Miolos – tapioca
Lêndeas – sementes de fumo usadas na pajelança
O lugar onde isso aconteceu é considerado sagrado — a “casa da flauta” — e não pode ser desmatado ou queimado. A lenda, registrada por anciãos da etnia, simboliza a origem da roça e a relação de respeito com a terra e seus frutos.

Assuntos Governo
Compartilhar este artigo
Facebook Twitter Email Copy Link Print

Você pode gostar também

Ministro da Fazenda, Durigan assegura manter consolidação fiscal com justiça social
Governo

Ministro da Fazenda, Durigan assegura manter consolidação fiscal com justiça social

20 de março de 2026
Lula entrega 324 novos ônibus escolares e exalta a educação como política essencial
Governo

Lula entrega 324 novos ônibus escolares e exalta a educação como política essencial

20 de março de 2026
Mutirão da saúde das mulheres vai realizar 230 mil procedimentos em todo o País no sábado e no domingo
Governo

Mutirão da saúde das mulheres vai realizar 230 mil procedimentos em todo o País no sábado e no domingo

20 de março de 2026
Em 30 dias, Governo do Brasil amplia apoio às famílias e lidera reconstrução na Zona da Mata mineira
Governo

Em 30 dias, Governo do Brasil amplia apoio às famílias e lidera reconstrução na Zona da Mata mineira

20 de março de 2026
Tecnologia transforma esgoto em água e fortalece produção de alimentos no Semiárido
Governo

Tecnologia transforma esgoto em água e fortalece produção de alimentos no Semiárido

20 de março de 2026
MGI leva inclusão digital e amplia acesso a serviços públicos em ação do Governo na Rua no Rio de Janeiro
Governo

MGI leva inclusão digital e amplia acesso a serviços públicos em ação do Governo na Rua no Rio de Janeiro

20 de março de 2026
Ministério da Saúde inaugura duas salas de cirurgia em São Paulo (SP) com recursos do Novo PAC
Governo

Ministério da Saúde inaugura duas salas de cirurgia em São Paulo (SP) com recursos do Novo PAC

20 de março de 2026
Investimentos vão impulsionar potencial de produção que estava subutilizado, diz Lula
Governo

Investimentos vão impulsionar potencial de produção que estava subutilizado, diz Lula

20 de março de 2026
Sudene libera R$ 18,1 milhões para energia solar no Ceará e reforça protagonismo do Nordeste na transição energética
Governo

Sudene libera R$ 18,1 milhões para energia solar no Ceará e reforça protagonismo do Nordeste na transição energética

20 de março de 2026
MTE resgata 12 trabalhadores em condições análogas à escravidão em Mato Grosso
Governo

MTE resgata 12 trabalhadores em condições análogas à escravidão em Mato Grosso

20 de março de 2026
Crédito Instalação, do Incra, garante acesso à água a 655 famílias no semiárido baiano
Governo

Crédito Instalação, do Incra, garante acesso à água a 655 famílias no semiárido baiano

20 de março de 2026
Governo Federal e Delegacias do Consumidor reforçam articulação nacional
Governo

Governo Federal e Delegacias do Consumidor reforçam articulação nacional

20 de março de 2026
O GovernadorO Governador