Durante anos, o combate ao desmatamento foi tratado como uma pauta ambiental, quase isolada das discussões de segurança pública. Mas o estudo recente “Combate ao desmatamento reduz a criminalidade na Amazônia”, encabeçado pelo projeto Amazônia 2030, ajuda a desmontar essa separação artificial: reforçar a fiscalização ambiental está associado à redução de homicídios e da criminalidade nos municípios da Amazônia.
A pesquisa indica que, onde o Estado está presente, a violência diminui; onde se ausenta, prosperam a grilagem, o garimpo ilegal, a extração clandestina de madeira e os conflitos armados. Na linha de frente dessa presença está o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), que administra um território maior que muitos países e atua, na prática, como a face mais visível do Estado brasileiro em áreas remotas. Atualmente, o Instituto é responsável por 133 unidades de conservação federais no bioma, que somam mais de 60 milhões de hectares.
De acordo com o coordenador da Coordenação-Geral de Proteção do Instituto (CGPRO), Ricardo Brochado, a ligação entre crime ambiental e violência não é apenas coincidência estatística, mas parte do mesmo sistema.
“O crime ambiental típico na Amazônia está ligado à ocupação de novos territórios e vem acompanhado de outros crimes – fundiários, fiscais, trabalhistas e violência contra as pessoas. Aqui, praticamente todas as operações precisam de apoio policial”, afirma o coordenador da CGRO.
Presença que vai além da fiscalização
Em muitos desses territórios, a presença do ICMBio não se limita à aplicação de multas ou à apreensão de equipamentos. Na prática, os agentes ambientais acabam sendo o único contato do Estado em áreas onde serviços básicos quase não chegam.
Isso significa orientar moradores, mediar conflitos fundiários, lidar com emergências e oferecer informações que extrapolam as atribuições ambientais. A fiscalização, ali, vai além da repressão ao crime e opera também como presença institucional.
Operações que mudam a dinâmica do território
Apesar de limitações estruturais, algumas estratégias têm produzido efeitos concretos. O ICMBio passou a combinar inteligência territorial, tecnologia e presença física contínua nas áreas mais pressionadas.
A coordenação utiliza diferentes ferramentas de monitoramento por satélite – como o Sistema de Detecção do Desmatamento na Amazônia Legal em Tempo Real (Deter), o Programa Brasil MAIS, do Ministério da Justiça, plataformas independentes como o MapBiomas e análises próprias – para identificar quase em tempo real onde o desmatamento está avançando. Com base nesses alertas, o órgão define prioridades e concentra esforços nos pontos mais críticos, em vez de dispersar equipes por todo o território.
Segundo Brochado, essa metodologia de seleção de áreas prioritárias tem direcionado as operações para os focos mais intensos de pressão e já provocou quedas significativas no desmatamento dentro das unidades federais. Os dados mais recentes do Projeto de Monitoramento do Desmatamento da Floresta Amazônica Brasileira por Satélite (Prodes) organizado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), de agosto de 2024 a julho de 2025, indicaram a maior redução de desmatamento nas unidades sob gestão do ICMBio desde a criação do órgão. A redução no desmatamento nas UCs federais foi de 74%, de 2022 a 2025, sendo consideravelmente maior do que a, já impressionante, redução de 50% na Amazônia como um todo no mesmo período.
Mas, para além dos números, há impactos diretos no cotidiano do território. “Vale destacar ações nossas na Amazônia que causaram impacto no desmatamento e, indiretamente, na criminalidade”, afirma a gerente regional Norte, Carla Lessa. Ela cita operações de retirada de gado ilegal na Reserva Extrativista Chico Mendes (AC) e na Estação Ecológica da Terra do Meio (PA), além do estabelecimento de bases permanentes de apoio à fiscalização nesses espaços e na Área de Proteção Ambiental Tapajós (PA) e na Floresta Nacional do Bom Futuro (RO), em conjunto com forças de segurança.
Gado sendo detido na Operação Suçuarana, feita pelo ICMBio, na Resex Chico Mendes, no Acre
A retirada de rebanhos ilegais, a instalação de bases fixas e a vigilância constante alteram a lógica da ocupação clandestina. Sem infraestrutura, sem circulação de gado e sob monitoramento contínuo, o território deixa de ser atrativo para redes ilegais.
Conservação da biodiversidade é segurança pública
A principal mensagem do estudo do Amazônia 2030 é que proteger a floresta também é proteger pessoas. Ao cruzar dados de fiscalização ambiental com indicadores criminais, a pesquisa demonstra que o aumento de multas, monitoramento e presença do Estado está associado à queda de homicídios nos municípios mais pressionados pelo desmatamento. A política ambiental, portanto, produz efeitos que vão além da conservação; ela impacta diretamente a segurança pública.
Na Amazônia, motosserras e armas de fogo fazem parte do mesmo conflito. A abertura de áreas ilegais costuma vir acompanhada de grilagem, expulsão de comunidades, trabalho precário e ameaças a lideranças locais. O desmatamento não é um crime isolado, mas o ponto de partida de cadeias econômicas controladas por grupos que operam com intimidação e violência para garantir o controle do território.
A atuação do ICMBio evidencia essa conexão na prática. Ao apreender equipamentos, retirar gado ilegal, embargar áreas e manter bases permanentes de fiscalização, o órgão não apenas reduz a derrubada da floresta, mas atinge o elemento estruturante dessas redes: a cadeia de lucro que sustenta a ocupação ilegal.
