No mês em que se comemora o Dia Nacional do Circo, 27 de março, acontece um marco importante para a comunidade artística circense brasileira, em especial para os grupos de tradição familiar. Nos dias 10 e 11 de março, o Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, órgão colegiado de decisão máxima do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), terá sua 112ª reunião, no Palácio Gustavo Capanema, no Rio de Janeiro (RJ), para discutir o reconhecimento de sete bens culturais, dentre eles o Circo de Tradição Familiar, como Patrimônio Cultural Brasileiro. A deliberação pode resultar na inscrição da manifestação no Livro de Registro das Formas de Expressão. A reunião pode ser acompanhada ao vivo no canal de YouTube do Iphan: www.youtube.com/iphangovb r
Fruto de uma demanda histórica e luta longeva de circenses brasileiros, o reconhecimento é resultado de um processo conduzido pelo Iphan, que concluiu os estudos técnicos sobre a relevância histórica, social e cultural do circo de lona organizado em núcleos familiares. Presente em todas as regiões do país, essa tradição se caracteriza pela atuação de pequenos grupos – em sua maioria nômades e itinerantes – estruturados em torno de famílias que, em alguns casos, reúnem até oito gerações dedicadas à arte circense.
Confira na íntegra o parecer técnico do Iphan sobre o registro Circo de Tradição Familiar no Brasil
Sustentado pela itinerância, pela organização comunitária e pela capacidade constante de adaptação às diferentes realidades locais, o circo ocupa lugar central no imaginário cultural brasileiro. Ao longo de sua história, contribuiu para a formação de públicos e para o desenvolvimento de outras formas de entretenimento de massa, além de ser, muitas vezes, o principal, ou único, acesso a espetáculos artísticos em municípios afastados dos grandes centros urbanos.
A Fundação Nacional de Artes (Funarte) é a entidade do Ministério da Cultura (MinC) responsável pelas políticas de fomento ao circo brasileiro. O diretor do Centro de Circo da Fundação , Marcos Teixeira, ratifica os impactos do reconhecimento para toda a área circense: “O reconhecimento do Circo de Tradição Familiar como Patrimônio Cultural do Brasil é uma conquista que, no fundo, engloba toda a atividade circense em nosso país. Apesar do recorte para a patrimonialização ser restrito aos que cumprem determinados requisitos, a titulação e ações de salvaguarda que serão criadas, além daquelas já implementadas pela Funarte ao longo dos anos, darão maior visibilidade a esta linguagem artística e, temos certeza, contribuirão para que os gestores públicos, em todo o país, recebam os circos de braços abertos. Viva o circo brasileiro!”.
Com apoio da Funarte, importantes grupos familiares de diversas regiões do Brasil vão acompanhar presencialmente a reunião do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural. Entre os nomes confirmados, estão: Edlamar e Erimeide Zanchettini, proprietárias do Circo Zanchettini e responsáveis pelo início do processo de patrimonialização do Circo de Tradição Familiar; Consuelo Vallandro, pesquisadora da linguagem circense e coordenadora do recente levantamento de dados para a elaboração do dossiê que será analisado pelo Conselho Consultivo do Iphan; Wilma Macedo, artista circense, atual presidente da Associação dos Circos Itinerantes da Bahia e uma das colaboradoras na construção do dossiê; e Walter Brandão, da família Brandão, tradicional linhagem circense brasileira ligada ao Real Circo.
Patrimônio vivo e transmissão de saberes
De acordo com o parecer técnico do Iphan, o Circo de Tradição Familiar constitui um patrimônio vivo, cuja riqueza não se restringe aos espetáculos apresentados no picadeiro. O reconhecimento abrange um conjunto de saberes transmitidos entre gerações: técnicas de montagem e segurança de lonas, modos de organização do trabalho, pedagogias informais de formação artística, repertórios cômicos e acrobáticos, além de valores éticos e comunitários próprios da vida itinerante.
O reconhecimento pelo Conselho Consultivo representa, portanto, não apenas um gesto simbólico, mas a consolidação de uma política pública voltada à salvaguarda de práticas culturais estruturantes da identidade brasileira.
O debate sobre o reconhecimento ocorre em um contexto mais amplo de fortalecimento das políticas públicas para o circo. Na Fundação Nacional de Artes (Funarte), a criação do Centro de Circo marca um avanço institucional no reconhecimento da linguagem artística como campo estratégico. A conquista histórica que desmembrou a área de Artes Cênicas para diretorias específicas de Circo, Dança e Teatro garante mais atenção às especificidades de cada linguagem e fortalece a capacidade da Funarte de formular, executar e articular políticas públicas para cada campo artístico em diálogo com seus agentes, grupos, coletivos e territórios.
Tradição familiar e continuidade
Entre as famílias que mantêm viva essa tradição está a de Michelle Mocellin, conhecida artisticamente como Mika, quarta geração circense. Neta de Antenor, montador em grandes companhias de circo, e filha de Wilson, que herdou e transmitiu os conhecimentos técnicos e éticos da montagem e segurança das lonas, Mika cresceu no ambiente do circo, aprendendo desde cedo os ofícios que vão da marcação do terreno à relação direta com o público.
À frente do Master Show Circus, que percorre o Distrito Federal levando espetáculos e ações formativas a diferentes comunidades, especialmente em áreas periféricas, Mika acredita que o reconhecimento do Circo de Tradição Familiar como patrimônio cultural brasileiro é mais do que uma conquista institucional: “O reconhecimento do circo de tradição familiar como patrimônio cultural do Brasil, além de ser um sonho, é essencial para salvaguardar os saberes que não estão apenas nos espetáculos, mas nos processos. Trata-se de um patrimônio vivo, transmitido entre gerações, que historicamente levou arte e alegria a territórios com pouco acesso a bens culturais”.
Ela ressalta que o título também representa a valorização de trajetórias muitas vezes invisibilizadas: “Como herdeira dessa tradição, sinto que esse reconhecimento valida trajetórias e afirma o valor social do circo de lona. É um gesto de respeito às famílias circenses que, apesar das dificuldades, preservam um saber singular e profundamente enraizado nas realidades locais.”
Jonathan Cericola, quinta geração circense, também conhecido como palhaço Pão de Ló, nome que herdou do seu bisavô, Leonardo Romeo Cericola (palhaço na década de 1930), ressalta que este reconhecimento é resultado de muita luta das famílias circenses que mantêm viva esse legado: ”Uma coisa que meu bisavô lutava, que minha mãe, que foi sindicalista, trapezista, lutou pra caramba também. A família Zanchettini lutou bravamente e estar vivendo isso agora é muito importante”.
A família de Jonathan veio da Itália para o Brasil em 1893. Chegaram no Porto de Santos e depois seguiram para o Rio de Janeiro. São 133 anos de atividades circenses: “Na prática, esse reconhecimento é justamente esse campo protetor, que nossa memória não é só uma história contada. Nossa memória são nossas vidas, é nossa existência, é para onde os mais jovens da nossa família ainda vão. A gente espera que não acabe”.
