A rotina do casal de produtores rurais Edmilson Rosa dos Santos, 57, e Celina Almeida, 48, no Amapá, é marcada pelo ritmo das águas e da terra. Em Santana (AP), eles mantêm uma casa para garantir que o filho conclua o ensino médio. Mas é na Ilha do Pará, no município de Afuá (PA), a três horas de navegação, que está o coração do trabalho da família. “O nosso forte é lá. A gente vive autônomo, trabalhando com tudo: farinha de mandioca, (venda de) perfume, roça, açaí e criação de porco”, resume Edmilson.
Para escoar a produção de milho, macaxeira, cana e banana, o casal dependia de um barco pequeno e desconfortável. A logística era um desafio para buscar mercadorias e vender os produtos de porta em porta nas casas ribeirinhas ao longo da Ilha, e também nos municípios de Santana e Mazagão. Tudo começou a mudar quando Celina, associada à Colônia de Pescadores Z-6, participou de uma reunião sobre uma nova linha do Microcrédito Produtivo Orientado (MPO), viabilizada pelo Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR), que leva a mensagem “Microcrédito Pertinho da Gente” às comunidades atendidas. “Nunca tinha recebido uma oportunidade dessas antes”, recorda Celina.
Mesmo com o receio inicial de contrair uma dívida, o casal foi acompanhado de perto pela equipe técnica. “A coordenadora me explicava tudo com calma pelo telefone, sobre as fases para ser aprovada. Isso me acalmou”, conta ela. Em 2025, Celina contratou R$ 12 mil como pescadora. Somando o crédito aos R$ 18 mil que haviam economizado com muito esforço, o casal tomou uma decisão estratégica: comprar um barco de madeira maior, com 13 metros de comprimento e infraestrutura completa.
“Hoje temos cozinha no barco, a gente dorme nele. Ficou mais fácil arrumar dinheiro porque ele é grande e confortável para acomodar tudo o que plantamos”, explica Edmilson. O barco tornou-se o coração do negócio: funciona como transporte, espaço de descanso durante as viagens e ponto de venda flutuante.
Microcrédito
Para alavancar a produção, faltava o apoio institucional para converter esforços em crescimento estruturado. Até 2024, o Fundo Constitucional de Financiamento do Norte (FNO) não subsidiava programas de microcrédito na região. Esse cenário começou a mudar a partir de dezembro daquele ano, quando o ministro da Integração e do Desenvolvimento Regional, Waldez Góes, implementou a linha de microcrédito no fundo.
A medida tem o objetivo de fortalecer a geração de renda de pequenos produtores, por meio do financiamento de capital de giro, da compra de equipamentos ou da expansão do negócio familiar. “Não basta ter a política pública, é preciso que ela chegue às pessoas que mais precisam”, afirma o ministro. Em pouco mais de um ano, as contratações de microcrédito no Norte saltaram de zero para 3.349, direcionando R$ 41,4 milhões diretamente para a economia da agricultura familiar.
Disciplina e esforço conjunto
O sucesso do primeiro crédito de Celina não foi sorte, mas planejamento. Edmilson estabeleceu uma rotina rigorosa: todo mês, depositava na conta o valor necessário para a quitação futura. O resultado foi a antecipação do pagamento, o que garantiu ao casal o bônus de adimplência, com um desconto de 40%.
Essa condição abriu as portas para uma nova e maior fase. Em janeiro de 2026, durante o mutirão de microcrédito com o Ministro Waldez Góes, o casal renovou e expandiu seus horizontes. Celina contratou R$ 15 mil e Edmilson, como agricultor, outros R$ 12 mil.
Se o primeiro crédito comprou a logística (o barco), o segundo está financiando a infraestrutura produtiva. Celina utiliza seus R$ 15 mil como capital de giro para revenda de farinha de mandioca em larga escala, e Edmilson está investindo os R$ 12 mil na expansão do açaizal e na suinocultura.
O sonho agora é a autonomia total. Edmilson planeja construir baias de madeira para os porcos e adquirir uma máquina de trituração. “Em vez de comprar ração, eu quero fazer a ração no meu terreno com a macaxeira, a cana e o milho que eu mesmo planto e armazeno. Um negócio vai dando suporte para o outro”, projeta o agricultor.
Uma política de confiança
A realidade de Celina e Edmilson é um exemplo de como o microcrédito transforma vidas. Para Edmilson, a mensagem para outros produtores é de responsabilidade. “O banco é amigo, mas pode ser inimigo se você não paga e acaba a confiança. É ser fiel, que todo pouco vira muito”.
