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Cinema brasileiro é premiado no Globo de Ouro e reforça a importância da memória

12 de janeiro de 2026
Cinema brasileiro é premiado no Globo de Ouro e reforça a importância da memória
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O Brasil conquistou, neste domingo (11), dois dos principais prêmios do Globo de Ouro 2026, um dos mais relevantes reconhecimentos do cinema internacional. O filme O Agente Secreto, dirigido por Kleber Mendonça Filho, venceu as categorias de Melhor Filme em Língua Não Inglesa e Melhor Ator em Filme de Drama, com Wagner Moura.

Tópicos da matéria
Políticas de memória e verdade Avanços consolidados Cultura, democracia e não repetição

Ambientado nos anos 1970, em pleno período da ditadura militar brasileira, o longa acompanha a trajetória de Marcelo, personagem interpretado por Wagner Moura, que retorna a Recife em busca do filho e tentando escapar de um passado marcado por silêncios, perseguições e violência. Ao reconstruir esse retorno, o filme lança luz sobre um período histórico cujas marcas seguem presentes na sociedade brasileira até os dias atuais.

Ao receber o prêmio de Melhor Ator em Filme de Drama, Wagner Moura ressaltou que a obra trata da memória e do trauma geracional. “O Agente Secreto é um filme sobre memória — ou sobre a falta de memória — e sobre trauma geracional”, afirmou. Segundo o ator, “se o trauma pode ser passado entre gerações, os valores também podem”.

A fala dialoga diretamente com os fundamentos da justiça de transição, campo que orienta políticas públicas voltadas ao enfrentamento de violações de direitos humanos cometidas em contextos autoritários, com base nos pilares da memória, da verdade, da reparação e das garantias de não repetição.

Ao comentar a declaração do ator, a coordenadora-geral de Políticas de Memória e Verdade do MDHC, Paula Franco, ressaltou que a reflexão proposta pelo filme ultrapassa o campo artístico e alcança o debate público. Para ela, “Wagner Moura aponta para uma pista de especial importância quando falamos de políticas de memória”.

Segundo ela, o debate sobre memória está diretamente ligado à própria ideia de nação. “Uma nação só é uma nação porque se identifica minimamente por uma mesma história”, afirmou, ao destacar a importância de políticas públicas que reconheçam o passado autoritário do país e seus impactos no presente.

Políticas de memória e verdade

(Foto: Duda Rodrigues/MDHC)
(Foto: Duda Rodrigues/MDHC)

No âmbito do Governo do Brasil, o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) tem fortalecido, nos últimos anos, políticas estruturantes voltadas ao direito à memória e à verdade, reconhecendo o papel do Estado na reparação das vítimas da ditadura militar (1964–1985) e de seus familiares.

Entre as principais iniciativas, estão os trabalhos da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) e da Comissão de Anistia, responsáveis por analisar casos, reconhecer responsabilidades do Estado e promover medidas de reparação moral, simbólica e econômica.

Outro eixo central é o Projeto Lugares de Memória, que visa identificar, preservar e dar visibilidade a espaços marcados por graves violações de direitos humanos durante o período ditatorial, transformando esses locais em instrumentos de educação, reflexão e construção da memória coletiva.

A coordenadora explica que é a partir dessa compreensão que o MDHC estrutura suas ações no campo da memória e da verdade. “É pensando nisso que as políticas do MDHC têm sido formuladas: para dialogar com a sociedade, para que cheguem a todos os cantos do território brasileiro”, pontuou.

Avanços consolidados

O reconhecimento internacional de O Agente Secreto dialoga com avanços concretos registrados no Brasil, em 2025, no campo das políticas públicas de memória, verdade, justiça e reparação conduzidas pelo Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), por meio da Assessoria de Defesa da Memória e da Verdade.

Entre os principais marcos, está o mapeamento nacional de espaços ligados à repressão e à resistência, com resultados disponibilizados no Observatório Nacional de Direitos Humanos (ObservaDH), na seção temática “Memória e Verdade”, reunindo dezenas de locais associados a graves violações de direitos humanos.

No eixo da justiça de transição, a Comissão de Anistia retomou protagonismo institucional, com a realização de sessões de julgamento, publicação de portarias decisórias e ampliação do atendimento a requerentes, fortalecendo o reconhecimento das violações cometidas pelo Estado e o acesso às medidas de reparação.

(Foto: Raul Lansky/MDHC)
(Foto: Raul Lansky/MDHC)

A Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) também avançou em suas atividades, com reuniões realizadas em diferentes capitais, diligências em cemitérios, audiências públicas e ações de preservação e análise documental, em diálogo permanente com os familiares das vítimas. No campo da reparação, destaca-se o Pedido de Desculpas da União pela negligência na identificação dos remanescentes ósseos da Vala Clandestina de Perus, além do anúncio de novas identificações no âmbito do Projeto Perus.

Ao longo do ano, o MDHC ainda lançou editais em parceria com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) voltados ao fortalecimento das políticas de memória e verdade, incluindo ações de pesquisa sobre locais de inumação, elaboração de publicações institucionais, mapeamento de comissões subnacionais da verdade e tratamento técnico de acervos históricos. Complementam esse conjunto de iniciativas a entrega de certidões de óbito retificadas e a realização do II Encontro Nacional de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos, reafirmando o compromisso do Estado brasileiro com a memória, a verdade e a reparação.

Para 2026, a ADMV projeta a ampliação do mapeamento de lugares de memória, o avanço na institucionalização de memoriais e a continuidade das ações de reparação simbólica e material, consolidando a memória e a verdade como pilares permanentes da democracia brasileira.

Cultura, democracia e não repetição

O reconhecimento internacional de O Agente Secreto evidencia o papel estratégico da cultura e do audiovisual na preservação da memória histórica e na produção de sentidos sobre o passado. Ao alcançar públicos diversos, dentro e fora do país, o cinema contribui para manter viva a reflexão sobre os impactos da ditadura e para fortalecer valores democráticos.

Nesse sentido, a premiação do filme brasileiro dialoga com as políticas públicas conduzidas pelo MDHC, ao reafirmar que lembrar é um ato político e que a memória é um direito fundamental — essencial para que traumas não se repitam e para que novas gerações compreendam a importância da democracia, dos direitos humanos e da justiça.

Para Paula Franco, reconhecer o passado é um compromisso coletivo. “Mostrar que o passado que a gente carrega é um passado de todo o Brasil”, completou, ao destacar que as políticas de memória também atuam como instrumento de fortalecimento da democracia e de garantia de não repetição.

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